A galinha brasileira ainda tem muito o que voar para que o país atinja o mínimo - TGI Consultoria

A galinha brasileira ainda tem muito o que voar para que o país atinja o mínimo

 
O governo Lula está diante de um problema importante: precisa que haja crescimento econômico vigoroso em 2006 para aumentar suas chances re-eleitorais. Todavia, a profundidade da crise política ocorrida em 2005 fez com que o Banco Central aparentemente exagerasse na dose do remédio dos juros. Com isso, houve queda acentuada do PIB no terceiro trimestre de 2005, o que compromete o crescimento futuro. Se o crescimento vier pequeno, fica abalado o discurso do governo.
“Desse jeito, restará a Lula apenas o discurso da estabilidade monetária, uma conquista que não é do seu governo.”
Cristovam Buarque, senador DF, FSP, 01.12.05
Em meio a esse dilema, o governo nem viu direito os números divulgados pelo IBGE dando conta da queda da miséria e da desigualdade no país ao longo dos últimos 10 anos (ver a propósito o GH/564). Uma avanço importante, embora insuficiente.
Essa insuficiência ficou bastante evidente com o bárbaro crime praticado na noite do dia 29.12.05 no Rio de Janeiro. Um ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá) que transportava trabalhadores e estudantes de volta para casa foi incendiado por traficantes armados oriundos do Morro da Fé, na Penha, zona norte da cidade. Os passageiros foram impedidos de sair, foi jogada gasolina, ateado fogo e fechadas as portas. Resultado: cinco mortos – queimados vivos – e 14 feridos. Um ato francamente terrorista para vingar a morte de um traficante em confronto com a PM, ocorrida na tarde daquele dia.
“Mais do que uma novidade – que também é – o ato terrorista ilustra um quadro de progressiva, anunciada e já monótona deterioração social associada ao enraizamento do crime organizado no país – fenômeno que já se conta em décadas e que há pelo menos 20 anos assumiu dinâmica perversa e configuração alarmante.”
Fernando de Barros e Silva, FSP, 04.12.05
Não obstante a melhora dos indicadores, o passivo social no Brasil é muito grande. Tão grande que serve de caldo de cultura para episódios hediondos como o do incêndio do ônibus carioca. Uma adolescente de 13 anos, namorada de um dos traficantes, foi quem solicitou a parada do coletivo. Uma adolescente que num país sério estaria dormindo naquela hora para ir à escola cedo no dia seguinte.
“Não sei ler nem escrever. Mal assino meu nome.”
Adolescente entrevistada em off
Na ausência do poder público, o tráfico e a contravenção transformam-se no principal provedor de “segurança”, fonte de renda e “educação” de largas parcelas da população. Domina territórios extensos onde a polícia não entra a não ser em vastas operações de guerra em carros blindados. Por enquanto, essas áreas são delimitadas mas no ritmo em que a situação está se deteriorando, não é desprezível a hipótese de que se dê por aqui algo parecido com o que aconteceu na Colômbia onde o tráfico chegou a estabelecer em Medelin praticamente um estado paralelo. Sem falar da hegemonia das Farc sobre vastas parcelas do território colombiano.
Para quebrar essa espiral de violência e colocar o país num ciclo de melhora acentuada do quadro social algumas coisas são indispensáveis: (1) crescimento econômico sustentado (para aumentar as oportunidades de emprego e renda); (2) políticas compensatórias abrangentes (para acelerar a retirada da miséria de grandes parcelas da população); (3) um mutirão educacional permanente (para educar bem todos os jovens); (4) segurança pública conseqüente (para retomar o domínio público sobre todo o território nacional). Até agora, mal conseguimos parte do 2o. Item.