Considerações metafísicas sobrea primeira catástrofe natural globalizada - TGI Consultoria

Considerações metafísicas sobrea primeira catástrofe natural globalizada

 
Fernando Pessoa, o grande poeta português, escreveu num dos seus mais famosos poemas:

“… a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.”

Fernando Pessoa, “A Tabacaria”, 1928.

Mal disposto ou sob o impacto de um grande mal-estar. Mal-estar do tipo deste provocado pelo maremoto da �sia. Uma catástrofe amplamente divulgada, a primeira catástrofe natural, de fato, globalizada. Tão divulgada e com tantos detalhes que passou a fazer parte das preocupações e conversas de todos os que viram as imagens repetidas à exaustão. Com isso, pela magnitude arrasadora do fenômeno, é quase inevitável que sobrevenham as reflexões metafísicas e filosóficas.
O grande terremoto de Lisboa de 1755, o mais famoso desde a Idade Média, seguido de um maremoto que devastou as partes baixas da cidade, provocando estimadas 60 mil mortes (1/4 da população de 235 mil pessoas), deu margem a um debate que ficou famoso na literatura pelo caráter metafísico de suas considerações. O debate deu-se entre Voltaire e Rousseau, dois gigantes do pensamento da época e tratava, no fundo, do humano espanto diante da sua insignificância face à força da natureza rebelada.
O embaixador Rubens Ricupero, em recente artigo, sobre o maremoto da �sia, manifestou opinião acerca do tema:

“…a indiferença da geologia pela sorte das insignificantes formigas humanas cuja presença efêmera pode ser apagada, sem vestígio, por uma leve oscilação do eixo da Terra.”

Rubens Ricúpero, Folha de S. Paulo, 02.01.2005.

Se há uma única coisa que o maremoto asiático provocou de positivo foi, justamente, essa (re)tomada de consciência metafísica. Funcionou como uma espécie de golpe na soberba ancestral da nossa condição (sobre)humana de senhores da natureza, alavancada pela tecnologia e pelo extraordinário desenvolvimento da ciência. Apesar dessa pretensa superioridade, nos vemos completamente indefesos diante de forças muito maiores do que qualquer capacidade de detê-las ou subjugá-las.
Conforme diz Viadiadhar Surajprasad Naipaul, escritor inglês nascido em Trinidad e Tobago, prêmio Nobel de Literatura de 2001:

“Acostumamo-nos a nos sentir no topo de mundo. A contemplar a vida de lá e a sentirmo-nos capazes de dominar tudo aquilo que nos circunda. Mas quando um evento natural do gênero se desencadeia, ficamos impotentes para fazer qualquer coisa.”

V.S. Naipaul, FSP Especial Tsunami, 09.01.2004.

A soberba e a impotência, duas faces da mesma moeda da frágil condição humana se mostram por inteiras no episódio do oceano �ndico. O espanto e a desolação diante de tudo o que foi destruído não evitaram que já uma semana depois do ocorrido fossem observados turistas tomando banho de sol em algumas das praias assoladas. Nem evitarão a reconstrução das edificações nos mesmos lugares devastados pelas ondas. Teimosia, outra forma de expressão da soberba.

“…o homem vive e sobrevive não por ser uma animal racional, mas por ser um animal teimoso.”

Carlos Heitor Cony, FSP, 04.01.2005.

Que o episódio pelo menos ajude a uma postura mais humilde e reflexiva. Metafísica, afinal.

“Os ciclos de destruição e reconstrução terminam por acostumar a alma humana à incerteza, à precariedade. Mas também a viver com maior serenidade e a valorizar o momento presente.”

V.S. Naipaul, FSP Especial Tsunami, 09.01.2004.