"Toda unanimidade é burra" - TGI Consultoria

"Toda unanimidade é burra"

 
O genial dramaturgo brasileiro, pernambucano de nascimento, Nelson Rodrigues, gostava de frases retumbantes e controversas. Radicalizava para chamar a atenção. Todavia, como grande conhecedor que era da natureza humana, e da brasileira em particular, nenhuma frase sua pode ser descartada de princípio. Todas elas dão o que pensar, algumas ganham, até, o contorno de sentenças filosóficas. É o caso de “toda unanimidade é burra.”
A observação da realidade social e, particularmente, da empresarial (por si mesma um “recorte” da sociedade onde atua), permite a observação cotidiana de que a unanimidade é uma miragem, um ideal inatingível, impossível de se alcançar mas, apesar disso, continuamente procurada. As pessoas vivem constantemente buscando “consenso” e “harmonia” (outras formas de manifestação da unanimidade), perdendo com isso, muitas vezes, a oportunidade de um bom acordo.
Pretender a unanimidade significa não considerar adequadamente o inevitável potencial de conflito que existe nas empresas e a manifestação constante de interesses antagônicos. Pode-se dizer que a procura da unanimidade é perda de tempo e o seu “encontro” uma ilusão, daí a sabedoria da frase de Nelson Rodrigues. A unanimidade é “burra” porque desconsidera a realidade complexa e quando se manifesta é na forma da ilusão de uma falsa unidade. Forçar a barra para que todo mundo pense igual é não só um esforço vão como contraproducente. O conflito, ao contrário de um “mal”, deve ser melhor encarado como algo produtivo, do qual se pode tirar proveito competitivo. A unanimidade é a tentativa de eliminar o conflito e fazer valer a idéia de “um” só pensamento, de “um” só interesse etc. Geralmente, esse conteúdo “único” é justamente o de quem está procurando conseguí-lo…

“… os conflitos tornam-se produtivos. Livre fluxo de idéias e sentimentos conflitantes é essencial para o pensamento criativo. Para descobrir novas soluções ninguém deve contar só consigo mesmo.”

Peter Senge, autor do livro “A Quinta Disciplina”, em “Pequeno Manual de Administração e Negócios – Frases que Podem Mudar um Destino”, José Ronaldo Peyroton, Editora United Press, Campinas, 1998

Mas, atenção!, alertar para o fato de que não se deve ir atrás de unanimidade e, sim, procurar tirar o máximo partido produtivo das contradições e dos conflitos existentes para desenvolver o potencial criativo nas organizações, não pode significar, de modo nenhum, a defesa de que se deve ter múltiplas orientações estratégicas ou, dito de outro modo, que não se faz necessária uma direção focada e compartilhada por todos na empresa. Pelo contrário, tanto mais competitiva será a empresa quanto mais conseguir fazer com que seus integrantes compartilhem da visão de um “norte” para o qual devem se guiar, de um horizonte estratégico em direção ao qual caminhar. Acontece, todavia, que esse “norte” não se define por unanimidade porque, se isso acontecer, certamente ele também será “burro.”
Um rumo estratégico consistente é fruto de um grande acordo em cuja produção foram explicitados e confrontadas as diferentes visões, muitas certamente conflitantes, sobre os caminhos a seguir e definida a mais adequada. Não aquela em que “todos” acreditam, mas aquela que todos passam a defender.
Se para ter “uma só idéia em que todos acreditam” é preciso que muitos abdiquem de suas convicções, enfraquecendo o resultado final, “ter uma finalidade comum negociada, respeitando as diferenças” só fortalece o esforço de construir o resultado comum, que pode contemplar os diferentes interesses.