Devagar com o andor... - TGI Consultoria

Devagar com o andor…

“O pior defeito deste governo é o de achar que o problema está resolvido no mais tênue sinal de melhora em qualquer indicador. Ele perde a noção da gravidade de crise.”

Míriam Leitão, jornalista, coluna de 25.03.99

Depois de mais de dois meses sofrendo os efeitos da desvalorização cambial, a economia começa a apresentar os primeiros sinais positivos do ano. O dólar, que chegou a atingir o pico de R$ 2,22 (alcançando 75% de valorização), fechou na sexta-feira, 26.03.98, a R$ 1,78 (representando uma recuperação de 15,58% do real em março), com o BC comprando divisas para evitar uma queda brusca. A inflação corretiva parece ter começado a perder força (as projeções do IPC da Fipe são de 0,80% em março, contra 1,41% em fevereiro), baixando as expectativas para o índice de abril (mês do esperado pico pós desvalorização) para menos de 2%. Empresas do Brasil retomaram captações no exterior (US$ 300 milhões em eurobônus pelo Bradesco e ABN), coisa que não acontecia há muito tempo. Os juros começaram a ser reduzidos pelo BC (a taxa primária passou de 45% para 42% ao ano). O governo anuncia superávit primário de 2% do PIB em fevereiro, sinalizando com o cumprimento da meta de 2,7% do PIB acertada com o FMI para o primeiro trimestre, fundamental para a melhoria da credibilidade externa do país e, portanto, da retomada do fluxo financeiro internacional, interrompido com a crise da Rússia.
São sinais positivos, de fato, mas não devemos esquecer de que o estado geral do paciente é grave. Afinal, o tratamento que o deixou tão combalido foi adiado de forma demasiado imprudente, contrariando regras elementares, embora não escritas, de economia e de bom senso.

“Há duas regras básicas de economia que não se aprendem nos manuais: a primeira diz-nos que os ajustamentos ocorrem sempre; a segunda, que quanto mais tarde o fizermos, mais difícil e penoso será.”

Ernane Lopes, economista português, revista Exame Portugal, janeiro 1998

Os custos desse ajustamento, se tudo correr “bem”, não serão baixos. Os mais dolorosos: recessão e desemprego. Embora tenha diminuído um pouco em fevereiro (7,51%), a taxa de desemprego medida pelo IBGE em janeiro foi de 7,73%, a maior daquele mês desde 1983, quando a pesquisa começou a ser feita (em São Paulo, chegou a 9,18%, a maior da história também). E é justamente a recessão que tem segurado os preços nos patamares melhores do que os inicialmente esperados.
De todo este esforço, restam uma esperança e uma certeza. A esperança de que ele não seja em vão. Que a sorte nos favoreça e que o susto tenha acordado, de fato, o governo para a inevitável necessidade de agir, de forma responsável e persistente, no restabelecimento das condições para a retomada do desenvolvimento, sem o qual, a médio prazo, o país literalmente explode. Se o governo novamente agir da forma negligente como fez após as três crises anteriores (México, Ásia e Rússia), voltando à letargia depois dos primeiros sinais positivos, o nosso futuro próximo será, no mínimo, muito movimentado, tanto do ponto de vista econômico como político.
A certeza diz respeito à convicção de que, depois do ponto em que chegamos, o acordo com o FMI e a desvalorização foram males necessários.

“Apesar das dificuldades a serem superadas nos próximos meses, a situação do país é muito melhor do que era antes da liberação cambial.”

Luís Nassif, revista Ícaro Brasil, março/99

Apenas um cuidado adicional, para as empresas, com os novos sinais positivos da economia. Como diz o ditado popular: muito devagar com o andor por que esse santo é de um barro muito fraco. Se cair de novo, vai ser difícil recolar os cacos.