Economia

A espinha dorsal do estado

    Os indicadores disponíveis sobre o desempenho da economia de Pernambuco nas últimas três décadas não indicam estagnação ou decadência (ver a respeito no Conjuntura & Tendências número 90). Sinalizam, isto sim, um processo de transição de grande importância para o futuro do estado.     Setores tradicionais como o da agroindústria da cana-de-açúcar e o têxtil, por exemplo, estão perdendo espaço para outros mais dinâmicos como o da fruticultura irrigada e o da prestação de serviços especializados.     Uma das características mais marcantes deste processo de mudança é a que evidencia a consolidação de dois pólos extremos de dinamismo na geografia do estado. No litoral, a Região Metropolitana do Recife, a Zona da Mata e o Complexo-Industrial Portuário de Suape. No extremo oeste, Petrolina que polariza toda a ampla região irrigada do médio São Francisco, uma das de maior potencial produtivo do Brasil.     Garantir a articulação desses dois pólos extremos por intermédio de um eixo estratégico de desenvolvimento é uma das questões mais relevantes de Pernambuco no horizonte do próximo século.     A linha principal deste eixo, verdadeira espinha dorsal vertebradora do espaço geográfico do estado, é a Ferrovia Transnordestina cujo trecho Petrolina-Salgueiro, de 236 quilômetros (pontilhado na ilustração abaixo) está com sua construção interrompida desde 1991. O trecho Salgueiro-Recife, de 600 quilômetros encontra-se em estado de conservação ruim.                  Esta ferrovia é parte fundamental do corredor multimodal de transporte de 2.357 quilômetros que vai de Pirapora, em Minas Gerais, pela hidrovia do São Francisco, até Petrolina e, daí, por trilhos, até o Porto de Suape, barateando os custos de frete e tornando mais competitivos os produtos transportados. Segundo dados da Secretaria da Infraestrutura de Pernambuco, com R$ 1,00 por tonelada percorrem-se 24 quilômetros por rodovia, 107 quilômetros por ferrovia e 530 quilômetros por hidrovia.     De acordo com estimativas feitas, a plena operação deste complexo viário seria responsável pelo barateamento de 35% a 40% no preço do frete dos produtos transportados, beneficiando a fruticultura, o gesso do Araripe, o granito do Agreste, o milho para a avicultura e uma infinidade de produtos consumidos ou produzidos no interior do estado.     Apesar da importância capital que tem para o futuro de Pernambuco, todavia, a implantação deste eixo estratégico encontra-se, no presente, cercada de incertezas. A mais inquietante delas, no momento, diz respeito à privatização da chamada Malha Nordeste da Rede Ferroviária Federal, da qual o trecho pernambucano é parte integrante. Até o final de 1996, estará com a operação privatizada pelo regime de concessão de exploração toda a rede ferroviária do país, a excessão da Malha Nordeste que deve ser transferida em 1997. Não se sabe ainda em que condições. Há a idéia de licitar a conclusão do trecho Petrolina-Salgueiro, com recursos privados, em troca do direito de exploração por 30 anos.     A boa notícia é que o Governo Estadual firmou acordo com o Governo Federal para recuperação parcial do trecho Salgueiro-Recife e já está transportando por trem materiais da Celpe e da Compesa para o interior.     Discutir questões como esta e viabilizar soluções que contemplem as necessidades estratégicas do estado é condição essencial para um futuro viável. Debater e disseminar o conceito formulado pelo vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Paulo Gustavo Cunha, do Pernambuco Século XXI, nos dias de hoje, é fator-chave para a construção da competitividade do estado e de suas empresas.

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Pernambuco não está estagnado

    Estudo divulgado pela Sudene na semana passada aponta que Pernambuco foi o estado nordestino que menos cresceu no perĂ­odo de 1970 a 1995, muito embora sua taxa mĂ©dia de crescimento anual tenha sido 5,1%, menor do que a do Nordeste (5,8%) mas maior do que a do Brasil (4,6%), num contexto de crescimento da economia mundial em torno de 3% ao ano.     NĂŁo há novidade neste fato. Novidade seria, por exemplo, a confirmação de uma tendĂŞncia inversa como a que parecia se esboçar em 95, quando o PIB de Pernambuco apresentou, no perĂ­odo de janeiro e novembro, crescimento de 10,8%, o 2Âş maior do paĂ­s (ver a respeito, Conjuntura & TendĂŞncias nÂş 51).     A rigor, pode-se dizer que, desde o sĂ©culo XVIII, quando o ciclo do açúcar foi suplantado pelo ciclo do ouro, que Pernambuco, a provĂ­ncia mais rica e centro vital da economia colonial nos dois primeiros sĂ©culos de nossa histĂłria, vem perdendo posição relativa no paĂ­s.     É incorreto, no entanto, confundir perda de posição relativa com decadĂŞncia ou estagnação. NĂŁo Ă© decadente uma economia que, apesar dos pesares, de acordo com os dados da Sudene para 1995, mantĂ©m a posição de 2Âş PIB do Nordeste (representando mais da metade do da Bahia, 1Âş colocado; 5% a mais que o do Ceará, 3Âş colocado; 92% a mais que o do MaranhĂŁo, 4Âş colocado; e 152% a mais que o do Rio Grande do Norte, 5Âş colocado). Tampouco pode ser considerada estagnada uma economia que cresce a taxas de mais de 5% ao ano, de fazer inveja a muito “tigre” por aĂ­.     AlĂ©m do mais, mesmo o indicador de posição relativa aponta que o estado nĂŁo sĂł nĂŁo perde, como amplia a participação no PIB nacional de 2,4% em 1970 para 2,7% em 1995. E, se no Nordeste, perdeu posição, foi no perĂ­odo 70 a 85, quando caiu de 18% para 16% de participação no PIB da regiĂŁo, porque no perĂ­odo de 85 a 95, passou de 16% para 17%.     No perĂ­odo estudado pela Sudene, os estados que mais cresceram foram, justamente, os menores e que tinham espaço para isso: Rio Grande do Norte e Ceará que representavam, em 1970, respectivamente, 20% e 50%, da economia de Pernambuco.     A questĂŁo precisa ser colocada de outra maneira. Segundo a economista Tânia Bacelar (no encontro sobre a pernambucanidade, promovido pela Pesquisa Empresas & Empresários – Ano 7, em 10.10.96): Ă© preciso nĂŁo assumir a perda de posição relativa como sinĂ´nimo de crise; o que acontece Ă© que a economia de Pernambuco está em transição acelerada e, em relação ao paradigma do sĂ©culo XXI (produção de conhecimento, inteligĂŞncia, recursos humanos, informática), temos uma base muito boa para desenvolver, o que Ă© bom para o estado.     De acordo com o presidente do Instituto de Planejamento de Pernambuco (Condepe), JosĂ© Ailton de Lima, “a economia pernambucana está em transformação. Os setores tradicionais, como o tĂŞxtil e o da cana-de-açúcar, estĂŁo sendo substituĂ­dos por outros como o de serviços e da fruticultura” (Folha de SĂŁo Paulo, 06.10.96).     Para Armando Monteiro Neto, Presidente da Federação das IndĂşstrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), na mesma reportagem da Folha, a economia pernambucana “perdeu o dinamismo” de antigamente, mas nĂŁo se encontra “estagnada”.     A questĂŁo principal a ser colocada talvez seja nĂŁo gastar tempo demais discutindo o que nĂŁo existe e, sim, dirigir as energias para a ampliação da competitividade do estado e de suas empresas, considerando o horizonte do prĂłximo sĂ©culo. Mas, isso já Ă© assunto para outro Conjuntura & TendĂŞncias.

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Problemas em oportunidades

     O estrategista francĂŞs Michel Godet, em seu livro “Prospective et Planification StratĂ©gique” (Editora Economica, 1985, Paris), chama a atenção para o fato de que no idioma chinĂŞs a palavra crise Ă© constituĂ­da de dois ideogramas: um significando perigo o outro oportunidade.           Este fato, de conhecimento milenar, Ă© de grande importância na orientação do funcionamento cotidiano das empresas e organizações de um modo geral, nessa Ă©poca de crise competitiva onde estĂŁo em jogo a sobrevivĂŞncia e o crescimento.      É possĂ­vel entender que se problemas sĂŁo, por um lado, inevitáveis e prĂłprios da natureza humana pois se originam dos conflitos, contradições e diferenças que constituem a singularidade das pessoas e das organizações no ambiente de trabalho e concorrencial; sĂŁo, por outro lado, essenciais como indicadores de direção das mudanças necessárias.      Um caso que já pode ser considerado clássico, no ambiente empresarial brasileiro, de transformação de um problema em oportunidade, Ă© o da cerveja Kaiser.                                    Esse, como outros, Ă© um exemplo de que há, em toda crise, em todo problema, uma dimensĂŁo produtora de mudanças para ser aproveitada. É uma vertente que, quando nĂŁo dramatizada, transforma-se em oportunidade de sair da dificuldade e avançar.      Na prática do planejamento estratĂ©gico uma pergunta Ă© obrigatĂłria: como transformar esse (qualquer) problema em oportunidade?

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Por uma globalização dosada

      ÂĽbr />           “A simples globalização, isto Ă©, a nossa descuidada inserção na economia mundial fere dramaticamente o projeto de integração nacional. NĂŁo adianta dizer apenas que a globalização Ă© uma fatalidade, o que Ă© certo. Trata-se de usar essa fatalidade para nossos objetivos.” Delfim Netto, Revista Carta Capital, 07.08.96      Como mencionado no Conjuntura & TendĂŞncias nĂşmero 86 (“Deflação e Incerteza”), o processo de globalização (abertura Ă  concorrĂŞncia internacional) por que passa a economia nacional, ao mesmo tempo em que promove o drástico aumento da competição e da produtividade sistĂŞmica (segundo a Revista Exame de 03.07.96, a economia produz 31% mais do que há quatro anos, com o mesmo nĂşmero de pessoas empregadas), provoca efeitos colaterais danosos que exigem a mediação orientadora do governo.      Durante mais de duas dĂ©cadas (anos 70 e 80), no perĂ­odo em que vigorou o modelo de “substituição das importações” e ocorreu a crise da dĂ­vida externa, a economia brasileira foi uma das mais fechadas do mundo. Este fato, evidentemente, gerou uma infinidade de distorções e muita gente ficou muito mal acostumada com a falta de competição.      No inĂ­cio dos anos 90, seguindo uma tendĂŞncia mundial e, em particular, dos planos de combate Ă s altĂ­ssimas taxas da inflação na AmĂ©rica Latina, a economia brasileira foi sendo progressivamente aberta Ă  concorrĂŞncia externa atĂ© que, no final do Governo Itamar Franco, o Ministro da Fazenda Ciro Gomes deu uma “escancarada” geral. A ponto de o Governo Fernando Henrique ter tido que voltar atrás em algumas das decisões implantadas.      Esse processo de exposição do barco meio enferrujado da economia brasileira ao mar revolto da concorrĂŞncia internacional nĂŁo foi feito sem sacrifĂ­cios. Muitas empresas quebraram, outras mudaram de mĂŁos e muita gente perdeu o emprego.      Isto porque a globalização nĂŁo Ă© um processo neutro, nem pode ser considerado um fim em si mesmo. Como muito bem alerta a economista Tânia Bacelar (no II Encontro de SociĂłlogos de Pernambuco, Fundação Joaquim Nabuco, 02.02.96), a globalização Ă© um processo seletivo que, necessariamente, provoca polarização (entre áreas, pessoas e atividades) e, em decorrĂŞncia, tende a excluir o especĂ­fico, o pequeno, o local.      A abertura da economia Ă  concorrĂŞncia internacional pode ser entendida como um remĂ©dio poderoso para o mal da competição atrofiada. E, como todo remĂ©dio poderoso, pode ter efeitos colaterais graves. Logo, exige dosagem adequada e acompanhamento conseqĂĽente, sob pena de provocar mais danos que benefĂ­cios.      O Ăşnico agente que pode fazer isto Ă© o governo federal, mais nenhum outro. E o governo federal está fazendo menos do que pode e deve, deixando a regulação por conta do prĂłprio paciente, o mercado, com efeitos desastrosos em alguns casos.      A globalização da economia brasileira nĂŁo pode deixar de ser encarada sob a Ăłtica da soberania nacional e nem deixar de estar a serviço de um projeto de desenvolvimento do paĂ­s. Caso contrário, vĂŁo ser lançadas na marginalidade irrecuperável regiões (o semi-árido nordestino, por exemplo), empresas (as que nĂŁo conseguirem competir com o dumping social da China, por exemplo) e pessoas (quem nĂŁo tiver tido chance de se capacitar ou reciclar, por exemplo), comprometendo, no mĂ©dio prazo, a prĂłpria estabilidade social e polĂ­tica do paĂ­s.      Uma coisa Ă© certa, no entanto: embora, em nome da soberania nacional, a globalização da economia tenha que ser conduzida de modo conseqĂĽente, ela Ă© um processo irreversĂ­vel. Portanto, para as empresas, Ă© prudente ficar com um olho no padre (o governo) e outro na missa (o mercado) e nunca deixar de agir esperando ajuda. Ela pode nĂŁo vir.

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Deflação e incerteza

      No Brasil de hoje, deflação, infelizmente, rima com incerteza.      De fato, o que os últimos dados têm demonstrado é uma tendência de queda para zero dos índices mensais, com alguns, inclusive, marcando, deflação. O IGP-M da FGV acusou variação em agosto de 0,004%, o ICV do Dieese, para a cidade de São Paulo, -0,26%. Registrou-se, também, deflação no IPC-RJ (-0,04%) referente ao mês passado.      Esses índices, segundo o Ministro Malan, sinalizam, para breve, uma taxa anualizada de inflação de um dígito.      Estaria ótimo se o crescimento da economia não estivesse contido pela impossibilidade de crescimento das exportações devido ao câmbio valorizado (que está gerando déficits mensais da balança comercial) e se os juros, ainda muito altos, não estivessem provocando desequilíbrio fiscal pelo aumento da dívida pública.      A questão de fundo continua a mesma, já faz algum tempo: até quando o controle da inflação se sustenta sem um ajuste fiscal que equilibre o orçamento federal e afaste a necessidade da emissão de moeda (que gera inflação diretamente) ou da emissão de títulos (que aumenta a dívida e, por conseguinte, o déficit público) para financiar o desequilíbrio entre receitas e despesas?      O governo parece ter perdido o caminho das reformas constitucionais e está no compasso de espera do término das eleições para retomar o tema da reeleição.      Os últimos acontecimentos na Argentina (protestos da população contra a política econômica que já há alguns anos associa controle da inflação com alto desemprego) não dão muita consistência ao Cenário Argentino (ver Conjuntura & Tendências nº 75) com o qual o Presidente Fernando Henrique parecia trabalhar (esticar o controle da inflação para, com seus efeitos, ser reeleito em 98).      Os ganhos que o Plano Real propiciou à população, evidenciados pela última pesquisa do IBGE, não são suficientes para garantir a reeleição baseada apenas no que já foi feito. É preciso mais.      Afinal, este governo não foi eleito só para manter a inflação baixa nem, muito menos, para ser reeleito para fazer o que devia ter feito no primeiro mandato.      O que se espera do governo federal são políticas públicas consistentes com um desenvolvimento econômico e social sustentado. A abertura da economia, na esteira da chamada globalização, não é um processo que se regula por si só. Exige uma ação mediadora do governo para evitar os efeitos colaterais que não são poucos. Mas, isso já é assunto para o próximo Conjuntura & Tendências.     Š

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Uma visĂŁo do "Merconorte"

    Praticamente todas as análises que sĂŁo feitas considerando os impactos sobre o Nordeste da globalização da economia e da implantação do Mercosul apontam mais desvantagens que vantagens para a regiĂŁo.     Se isso Ă© verdade, entĂŁo, o que fazer? Que alternativas podem ser trabalhadas?                             Em instigante estudo recente, o “chairman” da Rio Doce Internacional, ex-ministro e reconhecido estrategista, Eliezer Batista da Silva, apresenta dois cinturões principais de desenvolvimento da AmĂ©rica do Sul: o CinturĂŁo do Sudeste (influenciando pelo Mercosul) e o CinturĂŁo de Desenvolvimento do Norte (a desenvolver-se no mĂ©dio prazo de 5 a 10 anos).     Este CinturĂŁo Norte se espalha, tendo como suporte logĂ­stico central o sistema de navegação pela costa marĂ­tima da ColĂ´mbia Ă  Bahia, conforme mostra o mapa.     A população total sob influĂŞncia deste CinturĂŁo Ă©, hoje, de 110 milhões e o PIB de US$ 240 bilhões. Segundo o estudo, “a existĂŞncia de assentamentos humanos quase totalmente desenvolvidos ao longo de toda a costa de Cartagena atĂ© Salvador e uma completa ordem de ainda desconhecidas e inexploradas complementariedades econĂ´micas faria deste CinturĂŁo do Norte uma zona com o maior potencial para crescimento da AmĂ©rica do Sul nas prĂłximas duas ou trĂŞs dĂ©cadas.”     Essa breve visĂŁo do que poderia ser um grande mercado do norte da AmĂ©rica do Sul (o “Merconorte”?) está completamente ausente do que se tem discutido e publicado sobre o Nordeste nos Ăşltimos anos. SĂł isto parece ser uma evidĂŞncia de que, hoje, o debate está mais condicionado pelo que “nĂŁo pode” do que pelo que “poderia ser”.     A propĂłsito, já existem negociações avançadas entre a Petrobras e a empresa de petrĂłleo da Venezuela (a segunda maior do mundo no setor) para a construção, em parceria, de uma refinaria no Nordeste, usando petrĂłleo venezuelano.     Talvez a saĂ­da para a regiĂŁo esteja em ampliar a perspectiva espacial e temporal do debate. Deixar de olhar sĂł para o Sul e olhar tambĂ©m para outras direções. Quem sabe, essa visĂŁo nĂŁo seja promissora?

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Sobreviver no mar

                  Os dois anos de Plano Real, superpostos aos quatros anos de abertura da economia do paĂ­s, tĂŞm obrigado as empresas brasileiras (e, pela ausĂŞncia de polĂ­ticas pĂşblicas regionais consistentes, as nordestinas em particular) a passarem pela maior “revolução cultural” de sua histĂłria.     Uma informação publicada pela Revista Exame de 03.07.96, ilustra bem esta situação: “com um nĂşmero menor de pessoas empregadas, a economia consegue produzir hoje 31% mais que há quatro anos”.     Para que este aumento de produtividade fosse possĂ­vel, muitas empresas tiveram que se ajustar drasticamente, algumas nĂŁo sobreviveram, outras tiveram que mudar de mĂŁos e muita gente perdeu o emprego formal (ainda que quem se manteve empregado tenha aumentado seu rendimento).     NĂŁo precisaria ser tĂŁo dramático se o Governo Federal fosse mais conseqĂĽente em sua polĂ­tica de desenvolvimento.     Entretanto, isto nĂŁo se deu e o fato objetivo, hoje, Ă© que as projeções com as quais o Governo parece trabalhar (ver Conjuntura & TendĂŞncias, nÂş 75) sinalizam para um rumo, nos prĂłximos anos, nĂŁo muito diferente do anterior.     Para sobreviver no “mar” e crescer num cenário como o projetado, as empresas terĂŁo que continuar investindo na profissionalização da gestĂŁo, na redução dos custos, no incentivo Ă  produtividade, na qualidade dos produtos, na “sintonia fina” com os clientes e no monitoramento atento da concorrĂŞncia. Š

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O cenário argentino

     No dia primeiro de julho de 1994, o Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, lançava o plano de estabilização econĂ´mica de maior sucesso da histĂłria do Brasil porque baixou uma inflação crĂ´nica de 30% ao mĂŞs para taxas que permanecem prĂłximas de 1%, dois anos depois.      A lĂłgica do plano era: “ancorar” o real ao dĂłlar (âncora cambial), de modo a expor os preços internos Ă  concorrĂŞncia dos preços internacionais, enquanto nĂŁo se faziam as reformas constitucionais (previdenciária, administrativa e tributária) que possibilitassem o equilĂ­brio definitivo do orçamento e mudassem a sustentação do plano para a âncora fiscal.      Ocorre que, com a crise cambial do MĂ©xico em dezembro/94, a equipe econĂ´mica viu-se obrigada a aumentar de forma cavalar os juros internos para evitar a fuga de dĂłlares e nĂŁo transformar em isopor o lastro da âncora em vigor (as reservas cambiais). Com isso, foi lançada a segunda âncora do plano (âncora monetária).      Seguiu-se uma grande quebradeira de empresas e bancos sem que, neste meio tempo, as reformas estruturais avançassem um milĂ­metro sequer no Congresso.      Dois anos depois, o governo dá sinais de que mudou de estratĂ©gia, abandonou as reformas no Congresso e parte para potencializar o Ăşnico trunfo polĂ­tico que de fato tem: a inflação baixa. Para isso, vai lançar mĂŁo das reformas “infraconstitucionais” e já começou com um corte violento no orçamento em vigor para segurar o dĂ©ficit pĂşblico.      As recentes projeções do Banco Central, com as quais o presidente trabalha, apontam a continuidade da queda da inflação com base na âncora cambial.           Moral da histĂłria: tudo leva a crer que o governo vai radicalizar aquele que seria o seu cenário intermediário, transformando-o em cenário principal atĂ© o fim do atual mandato presidencial, para chegar no ano eleitoral de 98 com a inflação literalmente derrubada e o campo preparado para a reeleição do presidente. É o Cenário Argentino.      Nele, a estabilização definitiva, com o lastro da âncora fiscal, fica adiada para o prĂłximo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Isto Ă©, se as variáveis-chave permanecerem precariamente equilibradas, como pretendido.      AtĂ© lá, as empresas terĂŁo de continuar convivendo com praticamente as mesmas variáveis relevantes de hoje: juros altos, ainda que em declĂ­nio, crescimento moderado da economia, câmbio valorizado, crĂ©dito restrito e caro, ausĂŞncia de polĂ­tica regional, concorrĂŞncia feroz, aumento da “dĂ­vida social”, fortĂ­ssima pressĂŁo de custos, preços estabilizados.      O mar, portanto, ao que tudo indica, vai continuar revolto e mais cheio de perigos do que talvez fosse necessário nos prĂłximos anos do Plano Real.

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Brasil 97 = México 94?

O economista Rudiger Dornbusch causou celeuma no mercado financeiro internacional (com direito a queda da cotação do dĂłlar em Nova York, dos tĂ­tulos da dĂ­vida externa brasileira e das Bolsas de Valores no Brasil) ao declarar, na 42ÂŞ ConferĂŞncia Monetária Internacional, segunda-feira, 02.06.96, em Sidney, Autrália, que um colapso financeiro no Brasil Ă© questĂŁo de tempo porque o real está supervalorizado (30% a 40% em relação ao dĂłlar) e o dĂ©ficit pĂşblico está fora de controle. Ou seja, o Brasil de amanhĂŁ Ă© o MĂ©xico de ontem. Rudiger Dornbusch Ă© um economista alemĂŁo, doutor pela universidade de Chicago (o templo mundial do monetarismo) e professor do legendário MIT (Massachusetts Institute of Tecnology, em Boston). Foi tambĂ©m, professor visitante da PUC-RIO e, na Ă©poca, casou-se com uma brasileira. A importância dada Ă  sua declaração deve-se ao fato de ser atribuĂ­da a ele, quando era consultor do Presidente Bill Clinton, a previsĂŁo sobre a quebra do MĂ©xico, ocorrida em dezembro de 1994. Em março, Dornbusch já havia causado polĂŞmica quando declarou, aqui no Brasil: “qualquer polĂ­tica incompatĂ­vel com um crescimento de 7%, em mĂ©dia, Ă© errada. Um paĂ­s que diz que nĂŁo pode crescer mais do que 3% está sendo mal administrado (…) quem quer que diga que Ă© porque ‘estamos lutando contra a inflação’, deve ser mandado para o zoolĂłgico” (Folha de SĂŁo Paulo, 31.03.96). As reações Ă s declarações de colapso cambial foram inĂşmeras, a começar pelo Ministro Malan que disse: “as declarações de Rudiger que sĂŁo corretas (ancorar a estabilidade em juros altos e câmbio defasado, sem ajuste fiscal adequado, Ă© suicĂ­dio) nĂŁo sĂŁo novas; e as que sĂŁo novas (defasagem cambial do dĂłlar frente ao real de 40%) nĂŁo sĂŁo corretas”. A conclusĂŁo do episĂłdio nĂŁo Ă© nova: continuamos estacionados no mesmo patamar. O tempo para ajuste fiscal definitivo, Ăşnico lastro firme da estabilização, está passando sem que os avanços sejam significativos. Mas ainda dá prá fazer.

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O aperto continua

    Diante dos 3.000 empresários que foram, semana passada, ao Encontro Nacional da IndĂşstria em BrasĂ­lia, reivindicando mudanças na polĂ­tica econĂ´mica, o Presidente Fernando Henrique disse que as coisas vĂŁo continuar como estĂŁo porque “nĂŁo há um Ăşnico indicador preocupante na área macroeconĂ´mica”.     O discurso dos responsáveis pela polĂ­tica econĂ´mica do governo continua o mesmo: o câmbio continuará valorizado e o juros (“assassinos”) continuarĂŁo altos, ainda que em queda lenta, enquanto nĂŁo for possĂ­vel lançar a âncora fiscal que depende, por sua vez, das reformas constitucionais.     Por ironia do destino, logo apĂłs a entrega da reivindicação formal por maior rapidez nas reformas, feita pelas lideranças empresariais em caravana (vindas do encontro com o Presidente da RepĂşblica), aos Presidentes da Câmara e do Senado, a votação do segundo turno da Reforma da PresidĂŞncia terminou com trĂŞs derrotas acachapantes impostas pela oposição e pelos dissidentes da base de apoio ao projeto do governo.     Com isso, amplia-se o pântano das reformas e o tempo vai-se esgotando rapidamente.     Com a popularidade em queda, o presidente precisa desentravar sua estratĂ©gia polĂ­tica e romper o cĂ­rculo de giz das reformas. Precisa, isto sim, ir em frente, com ou sem reformas.     Enquanto isso nĂŁo acontece, continua a quebradeira desnecessária de empresas.     NĂŁo há dĂşvidas que Ă© inevitável o ajustamento das empresas Ă s novas realidades do mercado globalizado e competitivo mas tudo pode e deve ser feito de modo mais sĂ©rio e menos dramático.     Destruir capitais e competĂŞncias empresariais por falta de polĂ­ticas conseqĂĽentes de desenvolvimento, inclusive regionais, nĂŁo faz justiça a um governo que foi eleito pela seriedade que inspirava e pelo que acenava de perspectivas de futuro.

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